O GP da Espanha e as particularidades que poucas corridas da Fórmula 1 têm

Além de corrida no Circuito da Catalunha marcar início da fase europeia da F1, também é a etapa em que as equipes mais trazem modificações para seus carros Por Livio Oricchio Nice, França FACEBOOK TWITTER

Por DaCidade 11/05/2016 - 14:10 hs
Foto: Divulgação
O GP da Espanha e as particularidades que poucas corridas da Fórmula 1 têm
Vista aérea do Circuito da Catalunha

A próxima etapa do campeonato, o GP da Espanha, quinto do calendário, domingo, tem características bem particulares. Por exemplo: marca o início da fase europeia da temporada. A F1 passou, este ano, por Austrália, Bahrein, China e Rússia. Mais: a maior parte das equipes se apresenta para a prova com importantes modificações em seus carros, visando torná-los mais rápidos, constantes e confiáveis.

Ainda: o Circuito da Catalunha, em Barcelona, é o primeiro a expor os pneus a esforços bastante elevados. Provavelmente haverá mais pit stops ao longo das 66 voltas da corrida do que nas etapas anteriores, também em função da nova regra dos pneus. São esperadas pelo menos três paradas. A partir deste ano os pilotos têm direito de escolher 10 jogos, dos 13 permitidos por GP, dentre os três tipos disponibilizados pela Pirelli. No caso do GP da Espanha, os mais resistentes à degradação: duros, médios e macios.

Vale a pena enumerar as muitas particularidades do evento em Barcelona e ver o que os profissionais da F1 pensam.

Ninguém melhor que o diretor técnico da Mercedes, equipe que domina a F1 nas três últimas temporadas, Paddy Lowe, para explicar: “Há um consenso na F1 de que se você é rápido no Circuito da Catalunha você será rápido em qualquer lugar”. 

DIFÍCIL ACERTAR O CARRO

O traçado de 4.655 metros e 16 curvas, localizado no município de Montmeló, ao norte de Barcelona, combina duas seções bastante distintas. Oferece curvas de baixa velocidade, como a 5, 10, e a chicane 14 e 15, curvas de média, como a 4, 9 e 16, e velozes e longas, a exemplo da 3, 4 e 12. Elas exigem elevada pressão aerodinâmica no carro. Mas há também no traçado catalão uma longa reta de 1.047 metros de extensão. E quanto menor a pressão aerodinâmica maior a velocidade final.

“Procuramos sempre um compromisso entre os dois acertos, o destinado a sermos rápidos nas curvas e o que visa termos boa velocidade na reta”, disse ao GloboEsporte.com Gary Anderson, hoje analista técnico de F1, mas no passado projetista da Jordan e Jaguar. 

Lowe disse ainda a respeito do Circuito da Catalunha: “A prova oferece uma importante referência do seu estágio de performance, também porque a maioria dos times leva muitas novidades nos seus carros”. As 11 equipes começarão a ter essa referência sexta-feira, nos primeiros treinos livres do GP da Espanha, a partir das 5 horas, horário de Brasília, 10 horas no local.

Largada do GP da China (Foto: Getty Images)Times costumam aplicar diversas atualizações nesta etapa do campeonato (Foto: Getty Images)

COLOCAR OS ENSINAMENTOS EM PRÁTICA

O diretor técnico da Williams, Pat Symonds, disse ao GloboEsporte.com, em Bahrein: “Estas corridas iniciais servem de grande ensinamento. Nos mantemos em contato direto com o nosso pessoal na sede, discutindo o que vimos, o que precisamos fazer, que comportamentos temos de rever nos carros, alguns programados para a Espanha”.

O experiente diretor da surpreendente Haas, o italiano Gunther Steiner, equipe norte-americana, estreante na F1, e já a quinta colocada, com 22 pontos, lembra um fato novo este ano: “Fomos para as primeiras etapas do campeonato sem saber ao certo o que esperar da nova regra dos pneus”. As escuderias devem definir os pneus desejados 14 semanas antes dos GPs fora da Europa e 8 semanas nas corridas no continente.

Gunther Steiner, Romain Grosjean e Gene Haas na coletiva da equipe Haas (Foto: Getty Images)Gunther Steiner, diretor da Haas (Foto: Getty Images)

“Obviamente aprendemos muito. Penso que todos estão trabalhando nos seus carros visando aproveitar melhor os pneus, em especial os mais macios, mais velozes”, comentou, Steiner, com o GloboEsporte.com. “A escolha dos jogos de pneus para as próximas provas já está sendo diferente, estamos vendo maior número dos jogos mais macios.” As mudanças nos carros serão orientadas também por esse fator, explicou o engenheiro.

MAIS PIT STOPS

De fato, a lista dos pneus escolhidos pelos pilotos e seus engenheiros para o fim de semana é surpreendente. Até o ano passado, a Pirelli disponibilizava dois tipos de pneus. Agora, como mencionado, são três e os pilotos podem escolhê-los. Em 2015, os times tiveram para o GP da Espanha somente pneus médios e duros. Agora, como os macios, mais velozes porém de menor vida útil, estão também disponíveis, a Ferrari, por exemplo, solicitou para Sebastian Vettel e Kimi Raikkonen 8 jogos dos macios, 4 dos médios e apenas um dos duros. 

A Mercedes e a Williams, 7 jogos dos macios, 5 dos médios e 1 dos duros. A RBR, 7 macios, 4 médios e 2 duros. 

Essas escolhas reforçam a ideia de uma corrida com várias paradas nos boxes. Em 2015, Nico Rosberg, da Mercedes, o vencedor, largou com os médios, fez o primeiro pit stop na 15.ª volta, voltou à pista com os médios, completou 30 voltas, realizou a segunda parada, na 45.ª volta, colocou os duros e foi até a bandeirada, 21 voltas mais tarde.

Escolhas de pneus dos pilotos para o GP da Espanha de 2016 (Foto: Pirelli)Escolhas de pneus dos pilotos para o GP da Espanha de 2016 (Foto: Pirelli)

A maioria deve usar, sábado, os macios no Q2 e, assim, largar com eles, como manda a regra. Esses pneus macios, no início da corrida, com os carros pesados e menos borracha no asfalto, devem dar uma autonomia média de 12 voltas. A referência é Valtteri Bottas, da Williams, nos testes de inverno, ter sido o piloto com maior autonomia com os macios, 17 voltas, mas a temperatura estava bem mais baixa da que as escuderias vão enfrentar domingo. 

“É uma realidade nova para todos”, lembrou ao GloboEsporte.com o chefe de operações da Pirelli, Mario Isola, em Sochi, referindo-se à temperatura do asfalto mais alta, agora.

O técnico falou que será interessante ver como os carros vão se comportar numa pista que exige bastante dos pneus, com curvas longas e rápidas e asfalto abrasivo. O diretor técnico da Mercedes, Lowe, comenta a questão: “Obviamente temos as referências dos testes de inverno, mas o cenário agora é diferente. Os pneus se comportam de outra maneira no asfalto mais quente”. É para esse desafio que Isola chama a atenção. “Vamos ver estratégias bem distintas.”

POSIÇÃO NO GRID, MUITO IMPORTANTE

Antes de alinharem os carros no grid pilotos e equipes vão se concentrar na sessão de classificação. “Ela é muito importante em Barcelona. Você ganha e perde uma corrida lá no sábado. Ultrapassar é muito difícil”, falou, em 2015, Hamilton, em Bahrein. E parecia adivinhar. No sábado, Rosberg conquistou a pole position, o que se mostrou decisivo para receber a bandeirada em primeiro. Foi a sua primeira vitória na temporada, muito auxiliado pela pole position e boa largada. É por essa razão que a definição do grid no Circuito da Catalunha é, muitas vezes, decisiva.

O andamento do GP da Espanha não deverá ser previsível como o da Rússia, dia 1.º, quando a reduzida degradação dos pneus, mesmo os supermacios e macios, fez com que os três primeiros colocados, Rosberg, Hamilton e Vettel, fizessem um único pit stop.

Treino classificatório GP da Austrália (Foto: Getty Images)Treino classificatório tem importância ainda maior no circuito de Barcelona (Foto: Getty Images)

Outro aspecto diferente inaugurado todo ano pelo evento de Barcelona é a maior capacidade de os times intervirem nos seus carros, por estarem na Europa. “Nos deslocamos com nossos motorhomes, na realidade uma minirreprodução de nossas sedes”, costumava dizer Ross Brawn, ex-diretor técnico da Mercedes, Ferrari, Benetton, dentre outras.

Com exceção dos GPs do Canadá, dia 12 de junho, sétimo do calendário, e da Europa, em Baku, na estreia do Azerbaijão na F1, uma semana mais tarde, 19, o Mundial seguirá na Europa até o dia 4 de setembro, com o GP da Itália. Serão oito provas no Velho Mundo.

OUTRAS ÁREAS DE INTERESSE NO FIM DE SEMANA: 

Hamilton – O atual bicampeão do mundo, piloto com três mundiais, se surpreendeu com a quebra do mesmo componente nas duas últimas etapas, China e Rússia, o sistema de recuperação de energia térmica MGU-H. Ele não teve também boas largadas nas duas provas anteriores, o que faz com que some 43 pontos a menos do companheiro de Rosberg (100 a 57). 

O inglês espera que a equipe resolva o problema e ele possa lutar com o alemão, autor de uma temporada excepcional, com quatro vitórias seguidas. Se forem somadas as três das três etapas finais de 2015, Rosberg vem de sete vitórias nas sete últimas corridas de F1. 

Carro de Lewis Hamilton é consertado na garagem da Mercedes, na Rússia (Foto: Divulgação )Carro de Lewis Hamilton é consertado na garagem da Mercedes, na Rússiam, após problemas no MGU-H (Divulgação)

Ferrari – A exemplo da Mercedes, os italianos também enfrentam dificuldades com a confiabilidade do equipamento. Na Austrália quebrou o turbo da unidade motriz de Kimi Raikkonen, em Bahrein, um pistão no motor térmico de Vettel, na Rússia, o câmbio do modelo SF16-H de Vettel precisou ser substituído. 

Na realidade, os dois desafios, o da Mercedes e da Ferrari, se relacionam. Por conta da aproximação do time de Maranello, a Mercedes passou a elevar o limite de uso do seu equipamento. E é justamente essa busca por maior velocidade, coordenada por James Allison, que está levando a Ferrari a expor seus carros a maiores chances de se romper. O Circuito da Catalunha não será fácil para as duas maiores adversárias hoje na F1.

Ferrari de Kimi Raikkonen teve princípio de incêndio no GP da Austrália (Foto: Divulgação)Ferrari de Kimi Raikkonen teve princípio de incêndio no GP da Austrália (Foto: Divulgação)

RBR – A grande novidade é a estreia do holandês Max Verstappen. Helmut Marko e Christian Horner, da direção da escuderia, decidiram colocar o russo Daniil Kvyat no carro de Max, na STR, e deslocar o promissor piloto de 18 anos para ser o companheiro de Daniel Ricciardo na RBR. O russo de 22 anos terá de saber administrar o desgaste emocional no fim de semana e não desejar provar nada a Marko e Horner, ao menos de cara. A possibilidade de erro comprometedor seria grande. A imprensa irá lhe perguntar de tudo.

Se apenas a história servisse para projetar o futuro, a dupla da RBR iria dispôr de equipamento para lutar pelo pódio, no mínimo, domingo. O consultor técnico do time, Adrian Newey, quando diretor técnico coordenou projetos para a Williams, McLaren e a própria RBR que venceram nada menos de 11 vezes o GP da Espanha, no Circuito da Catalunha.

No ano passado, em conversa com o GloboEsporte.com, Newey falou sobre seu retrospecto impressionante no evento: “É uma pista onde a aerodinâmica conta muito e essa é a área que mais privilegio nos meus projetos. Hoje, no entanto, o mais importante é o motor. E nós não temos um motor que nos permita lutar pelas vitórias”. Este ano, a Renault melhorou consideravelmente a sua unidade motriz nas últimas etapas. Ricciardo e Max podem vir a ter um grande carro em Barcelona.

Max Verstappen na fábrica da Red Bull, em Milton Keynes, na Inglaterra (Foto: Divulgação/Red Bull)Max Verstappen na fábrica da Red Bull, em Milton Keynes, na Inglaterra (Foto: Divulgação/Red Bull)

Max – Vai estar todo mundo de olho nele. Por mais que diga sentir-se tranquilo, é pouco provável que seja verdade. Apesar de muito jovem, ainda, sabe que Marko e Horner esperam que faça mais do que Kvyat. Com eles é a lei da selva. A referência será Ricciardo. Max é talentoso. A extensão da sua competência começará a ser compreendida agora.

Com certeza há outras áreas de interesse geradas pelo GP da Espanha, como se a revisão do projeto do FW38-Mercedes da Williams permitirá a Massa e Bottas se aproximarem no RB12-Tag Heuer (Renault). A McLaren já anunciou um pacotão de mudanças no MP4/31-Honda, de Fernando Alonso, sexto no GP da Rússia, e Jenson Button.

Não acabou: a versão B do modelo VJM09-Mercedes da Force India poderá levar a equipe a repetir a boa performance dos testes de inverno? Até agora somou apenas 8 pontos. Esperava-se bem mais. O mercado de pilotos seguirá mexendo as peças nos dias do evento em Barcelona. Com certeza na quinta-feira, quando todos estiverem no paddock do Circuito da Catalunha, mais notícias virão à tona.

INFO Circuitos Horários Espanha (Foto: Editoria de Arte)
INFO Circuitos Horários Espanha 2 (Foto: Editoria de Arte)